Traduzir bem exige reescrever o original
Nos últimos dois meses, publiquei a primeira leva de traduções do GitByBit. Com elas, cerca de 10% do planeta já pode aprender Git da melhor forma possível, no próprio idioma:
Estilo e tom
Ao escrever o GitByBit e, depois, ao traduzi-lo, eu tinha dois objetivos:
- um tom próximo e informal;
- a gíria técnica do dia a dia que os desenvolvedores realmente usam entre si.
Não deu para usar a documentação oficial do Git como referência principal porque, olhando de perto, ela costuma soar formal demais e traduz termos que os desenvolvedores de verdade preferem manter em inglês ou transliterar.
Alguns trechos até parecem tradução automática antiga com uma passada rápida de edição por cima. Talvez isso seja em parte consequência de quão fragmentado é o ecossistema de documentação: recursos e idiomas diferentes foram mantidos por projetos comunitários diferentes ao longo de muitos anos, sem uma voz editorial única cobrindo tudo. O resultado é uma qualidade irregular e uma terminologia que nem sempre bate com o jeito que os desenvolvedores realmente falam.
No mundo real, os devs que não falam inglês misturam inglês, termos traduzidos e gíria local. As proporções mudam de idioma para idioma — e até entre países que compartilham o mesmo idioma. Desenvolvedores de língua espanhola na Espanha, no México e na Argentina, por exemplo, podem usar gírias e expressões diferentes. Em espanhol, uma equipe pode falar da área de staging, enquanto outra chama isso de área de preparación ("área de preparação"). Uma mantém tag em inglês; outra traduz como etiqueta ("rótulo").
Essa falta de uma resposta única me deixava louco, até eu aceitar que nenhuma tradução seria perfeita. No fim das contas, você traduz principalmente para quem tem o aprendizado atrapalhado pelo inglês. Quem se vira com total tranquilidade em inglês provavelmente vai escolher o original desde o começo. Tente deixar a tradução mais clara, mais viva e mais humana do que a documentação oficial. Esse é um objetivo pragmático e alcançável.
Esqueça a perfeição! Mas pesquise a fundo, escolha com critério quando o uso for ambíguo e mantenha suas escolhas consistentes. Depois publique a tradução, torça para dar certo e melhore conforme o feedback dos usuários.
A sua versão PT-BR do GitByBit é perfeita. Eu não conseguiria escrever melhor, pode continuar mostrando para todo mundo
— Ivã S.
A língua como resultado de escolhas coletivas
É fascinante como a língua evolui em direções aparentemente aleatórias graças às escolhas coletivas das pessoas. Veja o espanhol e o português. Os dois são muito parecidos em construções e vocabulário. Os dois convivem com o Git há 20 anos. Ainda assim, com o tempo, suas comunidades de desenvolvimento firmaram convenções diferentes para a terminologia do Git.
Em espanhol, branch vira rama, a palavra do dia a dia para o ramo de uma árvore. Curiosidade: rama e a palavra inglesa ramification vêm da mesma raiz latina, ramus, que significa — adivinhou — ramo.
Já a maioria dos devs que falam português gosta de dizer branch em inglês, mesmo tendo ramo (e também galho) à disposição. Vai entender!
Quando dizemos commit, push e merge em inglês, quase nunca paramos para pensar que são substantivo e verbo ao mesmo tempo; em inglês, isso não muda muita coisa. Mas em muitos idiomas, incluindo esses quatro, substantivos e verbos têm características bem diferentes. Substantivos têm gênero gramatical, por exemplo, e verbos mudam de forma.
Aí surge mais um ponto de divergência entre espanhol e português. Na Espanha, é comum os desenvolvedores colocarem o verbo espanhol hacer — o nosso "fazer" — na frente do termo inglês puro: hacer commit, hacer push e hacer un merge. Para um ouvido brasileiro, isso soa quase igual a "fazer commit", "fazer push" e "fazer um merge".
No Brasil, por outro lado, a preferência é dizer commitar e mergear e conjugar tudo como se fossem verbos portugueses de nascença: mergei, mergeamos. Os substantivos ingleses foram engolidos inteiros pela gramática portuguesa. O push seguiu um terceiro caminho: dar um push.
Os dois idiomas sabem tomar palavras emprestadas. Quem fala espanhol também consegue transformar o empréstimo em verbo, como em commitear, e quem fala português pode dizer fazer um commit. Os dois têm exatamente as mesmas ferramentas linguísticas. O que muda é quais formas cada comunidade de desenvolvimento decidiu, coletivamente, que soam naturais.
Mesmo quando um termo continua em inglês, o idioma ao redor toma posse dele rapidinho. O termo ganha artigo, gênero gramatical, plural e, às vezes, uma família inteira de verbos novos. O pull request, por exemplo, é feminino em espanhol: la pull request. Em português, é masculino: o pull request. Também tem escolhas espinhosas. Os devs hispanofalantes, por exemplo, se dividem sobre o gênero da palavra terminal.
Para mim, este projeto foi uma ótima ilustração de como uma língua viva é conduzida pelas pessoas, e não projetada a partir de um manual. Às vezes existe um motivo claro para uma expressão vencer; às vezes dois idiomas muito próximos levam a mesma palavra inglesa para direções diferentes sem motivo aparente nenhum. Erre nessa escolha e o curso talvez continue compreensível, mas não vai soar como falam as pessoas para quem ele foi escrito.
As armadilhas do gênero
Falar diretamente com quem aprende cria outro problema quando você quer que a tradução soe informal.
A palavra inglesa you é fantástica porque não liga para gênero, número nem formalidade. É a mesma palavra em todos estes casos:
- gênero: um homem ou uma mulher
- número: uma pessoa só ou um grupo
- formalidade: um amigo próximo ou um presidente
Nossos quatro idiomas ligam, sim, para essas distinções, embora cada um as revele de um jeito. Primeiro, você precisa escolher a forma de tratamento certa:
- o espanhol distingue o tú informal, o usted formal e várias formas de plural;
- o português distingue o singular você do plural vocês;
- o ucraniano usa o singular informal ти e o plural ou formal ви;
- o russo faz a mesma distinção com ты e вы.
No GitByBit, falo de propósito com quem aprende como numa conversa entre amigos, então uso a forma informal do singular em cada idioma: tú, você, ти e ты.
Esses pronomes informais não têm gênero por conta própria, mas as palavras que vêm junto com eles muitas vezes têm. Resultado: frases completamente banais te obrigam a decidir um gênero onde o inglês não especifica nada. Por exemplo:
- Inglês: You're ready
- Espanhol: Estás listo ao falar com um homem, ou Estás lista ao falar com uma mulher.
- Português: Você está pronto ou Você está pronta.
- Ucraniano: Ти готовий ou Ти готова.
- Russo: Ты готов ou Ты готова.
Em inglês existe uma só opção, neutra em gênero; já cada tradução direta apresenta duas. E, escolhendo qualquer uma delas, o texto passa a soar como se tivesse sido escrito especificamente para um homem ou para uma mulher.
O ucraniano e o russo acrescentam mais uma armadilha: os verbos no passado também mudam conforme o gênero:
- Inglês: You created your first commit.
- Ucraniano: Ти створив свій перший коміт ou ти створила свій перший коміт.
- Russo: Ты создал свой первый коммит ou Ты создала свой первый коммит.
Por sorte, o espanhol e o português não têm esse problema específico:
- Espanhol: Has creado tu primer commit.
- Português: Você criou seu primeiro commit.
A solução na marra seria passar para o plural ou para o tratamento formal, mas isso faria um curso próximo, de um para um, soar distante ou como se estivesse falando com uma plateia inteira. Em vez disso, mantive a voz informal e mudei a estrutura das frases durante a tradução.
Aqui vai um exemplo real do curso. O original em inglês diz:
Awesome job! You've completed the second chapter of the course. Now you're ready to create your first repository and start pushing changes to it. Let's go!
Ao pé da letra, isso daria mais ou menos: "Trabalho incrível! Você completou o segundo capítulo do curso. Agora você está pronto ou pronta para criar seu primeiro repositório e começar a subir alterações. Vamos lá!"
Esse texto de aparência inocente esconde duas armadilhas. Vou te mostrar como desviar delas.
Armadilha 1: you've completed vira um verbo no passado com gênero em ucraniano e russo
- Inglês (antes): You've completed the second chapter of the course.
- Inglês (depois): The second chapter of the course is behind us.
A reescrita transforma o capítulo em sujeito e tira de quem aprende a ação no passado:
- Ucraniano: Другий розділ курсу позаду.
- Russo: Вторая глава курса позади.
Armadilha 2: ready vira um adjetivo com gênero nos quatro idiomas
- Inglês (antes): Now you're ready to create your first repository.
- Inglês (depois): Now you can create your first repository.
A reescrita elimina o "ready", então não sobra nenhum adjetivo obrigado a descrever quem aprende como homem ou mulher:
- Espanhol: Ya puedes crear tu primer repositorio.
- Português: Agora já pode criar seu primeiro repositório.
- Ucraniano: Тепер можна створити перший репозиторій.
- Russo: Теперь можно создавать первый репозиторий.
A frase reescrita desvia das armadilhas, não vaza gênero e continua soando informal na tradução. Esta é a reescrita completa em inglês:
Awesome job! The second chapter of the course is behind us. Now you can create your first repository and start pushing changes to it. Let's go!
Pronomes ambíguos
Os pronomezinhos do inglês muitas vezes obrigam quem traduz a tomar uma decisão de verdade. Veja este exemplo:
I found the bug in the function and fixed it.
A primeira coisa é decidir a que it se refere. Aqui, it aponta para o bug, não para a function. Esse pronome minúsculo cria duas armadilhas diferentes.
Armadilha 1: o ucraniano perde o objeto por completo
- Ucraniano (antes): Я знайшов баг у функції й виправив.
- Ucraniano (depois): Я знайшов баг у функції й виправив його.
Na primeira versão, o verbo виправив fica no ar: corrigiu o quê? A segunda devolve o його ("o") e aponta de volta para o bug.
Armadilha 2: o espanhol prende o pronome ao substantivo errado
- Espanhol (antes): Encontré el error en la función y la corregí.
- Espanhol (depois): Encontré el error en la función y lo corregí.
O la aponta para la función, então a frase diz que o que foi corrigido foi a função. O referente pretendido é el error, que pede lo.
Uma solução melhor: reescrever o original em inglês
- Inglês (antes): I found the bug in the function and fixed it.
- Inglês (depois): I found and fixed the bug in the function.
A reescrita é mais curta e transforma the bug no objeto explícito dos dois verbos. E ainda traduz sem tropeços:
- Ucraniano: Я знайшов і виправив баг у функції.
- Espanhol: Encontré y corregí el error en la función.
O original fica mais claro, e nenhum dos dois tradutores precisa decidir o que it significa.
Traduzir piadas
Ah, esse é um campo minado. Quando você escreve algo em inglês, quase nunca se pergunta se aquela piada ou expressão sobrevive à tradução. Tive que voltar ao original e adicionar um monte de comentários:
- explicando a essência da piada para que quem traduzir no futuro consiga criar um equivalente;
- oferecendo uma alternativa neutra quando um bom equivalente é impossível.
Aqui vai um exemplo simples de um dos quizzes do curso. Ele pergunta quem criou o Git e oferece várias respostas possíveis, incluindo uma deliberadamente absurda. A piada só funciona se o público conhecer o comediante. Louis C.K. é bem conhecido no mundo anglófono, mas bem menos familiar para o público da Ucrânia. Uma tradução literal preservaria cada palavra e perderia quase toda a graça. Por sorte, a versão ucraniana tem uma substituição cultural excelente:

— Não, mas foi ele que escreveu as piadas destes quizzes!
Nem toda piada tem um final feliz desses. Outro quiz pergunta o que acontece quando você commita alterações no Git. A versão em inglês acrescenta uma quinta resposta que transforma commit em commitment romântico ("compromisso"), com uma tirada final sobre um app de namoro para o Git.
O ucraniano toma commit emprestado (коміт) como termo técnico, mas a palavra não carrega esse segundo sentido. Traduzir a resposta ao pé da letra faria com que ela soasse completamente aleatória, e explicar o trocadilho inglês mataria a piada. Por isso a versão ucraniana simplesmente corta a resposta:

— Não, a não ser que alguém tenha finalmente criado um app de namoro para o Git!
Às vezes essa é a única opção honesta. Um curso um pouco menos engraçado ainda é melhor do que um curso que volta e meia faz quem aprende pensar: "Peraí, isso era para ser engraçado?" Parece que a localização é feita de escolhas assim. Nenhuma delas é perfeita nem definitiva, mas o GitByBit agora está muito mais próximo do jeito de falar dos desenvolvedores com quem ele conversa — e isso importa muito mais do que reproduzir o original em inglês palavra por palavra.
